História ao Vivo

Sobre latrinas e cubos

m qualquer lugar em que existe um agrupamento humano há um problema elementar a resolver: saneamento básico. Afinal, onde há gente, há, digamos, esgoto. Em Joinville (SC) uma das primeiras tentativas de disciplinar a questão se deu em 1880, quando foram publicadas na Gazeta de Joinville as Posturas da Câmara Municipal, espécie de constituição da cidade que fixava regras para o que se podia ou não fazer por lá.

 

Entre os artigos 37 e 39, a lei avisava que estava proibido “haver latrinas estrumeiras nos quintaes, em lugares expostos”, só sendo toleradas em “lugares afastados das ruas, em buracos apropriados e cobertas de telheiros”.

 

Essas latrinas deviam ser construídas “de maneira que não exalem máu cheiro”, devendo ser desinfetadas “sempre que preciso fôr ou o fiscal ordenar”. Canos para “dar esgoto às águas e outras exalações” também não podiam ser “dirigidos para as ruas ou praças”, muito menos posicionados de maneira que seus esgotos “incommodem ou prejudiquem aos visinhos (sic) e transeuntes”. A multa era pesada: 10 mil réis.

 

Materias fecaes

 

Sete anos depois, em 1897, a Câmara voltaria ao assunto apresentando uma modernidade aos cidadãos, ao determinar a construção de latrinas no perímetro urbano “de maneira que seja absolutamente evitada a infecção e máu cheiro”.

 

O sistema era baseado no que se chamou de “tinas impermeáveis”, com capacidade de armazenar entre 40 e 50 litros cada, equipadas com as devidas tampas. Ficou decidido que as residências seriam obrigadas a adquirir “tantas tinas quantas precisas forem” e que seria lançado um “imposto módico” para a sua remoção.

 

Aparentemente, o novo tributo não agradou à população, que se mostrou pouco disposta a pagar pelo descarte daquilo que sempre se expeliu de graça... Dez anos depois, em 1907, o secretário municipal mandava publicar no Commercio de Joinville um aviso candidamente intitulado “Remoção das materias fecaes”.

 

O texto fazia um alerta de cobrança aos devedores em atraso do imposto para a remoção do que agora se chamava de “cubos”, avisando que os valores seriam cobrados “executivamente” (na Justiça), se não fossem pagos “amigavelmente”.

 

Recolhimento entupido

 

Dois anos adiante, o sistema de esgoto ambulante continuava dando problema, pelo que se percebe em nota sob o título “Reclamação”, publicada pelo Commercio de Joinville em agosto de 1909. Segundo o jornal, “muitos moradores da rua Santa Catharina (atual Avenida Getúlio Vargas)” enfrentavam “serias difficuldades no tocante à remoção das materias fecaes”.

 

O motivo era que a rua não estava incluída no “contracto existente com a Empreza que se encarrega desse serviço”, e os moradores não podiam “manter nos quintaes de suas casas a necessária hygiene que a remoção semanal dos cubos proporciona”.

 

Concorrência

 

Demorou, mas a população foi ouvida. Seis anos mais tarde, em fevereiro de 1915, a Secretaria Municipal lançava um edital de concorrência para “remoção das materias fecaes”, publicado na Gazeta do Comércio, em que detalhava os requisitos aos postulantes.

 

Os cubos deveriam ser removidos para uma área que ficasse pelo menos um quilômetro fora do perímetro urbano, em terreno aprovado pela Superintendência Municipal (a Prefeitura da época). Quanto à periodicidade, a coleta seria feita “de acordo com os proprietários das casas, mas pelo menos duas vezes por mez”.

 

Ficava definido ainda que quem teria que pagar pela remoção e aluguel dos cubos eram os proprietários das casas, mas que o serviço seria gratuito nos “edificios municipaes”. O recolhimento deveria ser realizado na madrugada dos dias úteis, “de onze horas da noite até às 5 horas da manhã”.

 

Mais barato e mais longe

 

No mês seguinte, a Superintendência Municipal fez publicar na Gazeta do Comércio o resultado da concorrência, para a qual recebeu duas propostas, “sendo uma do Sr. Oscar Hromatka e outra do Sr. Emilio Manteufel”.

 

O Sr. Manteufel venceu, no preço e na distância. O secretário municipal Arthur Carstens, que assina o comunicado publicado pelo jornal, explica a opção pela proposta ganhadora, “não só por pretender menos 100 réis no aluguel dos cubos, como por obrigar-se a remover as materias fecaes para mais de 5 kilometros do perímetro urbano, quando a outra pretende a distancia não superior a 1 kilometro”.

 

Os projetos municipais para estabelecer uma coleta de esgoto pipocavam por várias cidades do Brasil desde o final do século XIX. Em Porto Alegre (RS), por exemplo, a prefeitura abriu uma concorrência semelhante à de Joinville, mas 37 anos antes, em 1878. Na ilustração abaixo, enviada por um proponente, é possível ver o modelo do “cubo” semelhante ao utilizado em Joinville.

 

Fonte: Arquivo
Histórico de Porto Alegre
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É possível ver também a ilustração do projeto da carroça que seria utilizada para fazer o recolhimento das “materias fecaes” na capital gaúcha (abaixo), que não devia diferir muito da que se usava no Norte de Santa Catarina, quase quarenta anos depois.

 

Fonte: Arquivo Histórico de Porto Alegre carros-fecais-jornal-retro

 

No Iririú, não

 

O caso de Joinville parecia solucionado, mas dois meses depois surgiam novas reclamações sobre a remoção dos cubos. Em uma breve nota, a Gazeta do Comércio dá conta que a população do bairro do Iririú, na zona Norte da cidade, reclamava compreensivelmente de ter sido o destino escolhido para receber as “materias fecaes” do município.

 

O jornal informa que o “Snr. Dr. Superintendente Municipal” já havia tomado as “necessários (sic) providências” para que o cubos não fossem mais despejados no Iririú e “sim em outro local mais apropriado”, já na “próxima semana”. E assim o problema foi empurrado um pouco mais para frente...

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