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Soldados de cor

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Gazeta do Commercio

  06/05/1916

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Fonte: Staatsbibliothek zu Berlin

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m maio de 1916 a Gazeta do Commercio ecoava mais uma reclamação do alto comando alemão em relação aos adversários na Primeira Guerra Mundial. Depois de acusar ingleses e franceses de fazer uso dos terríveis cartuchos Dum Dum (veja na Edição 6 do Jornal Retrô), agora a queixa era que os inimigos não dependiam “unicamente de suas próprias tropas”, trazendo ao “theatro da guerra européa grandes quantidades de soldados de cor”, da África e da Ásia.

 

Segundo o jornal, o “exercito popular allemão” era obrigado a se deparar com “gurkas (do Nepal), sirkhos (sikhs, provavelmente, também da Índia), panthans (pathans, na verdade, da Índia), cipayos (da Índia), turcos, marroquinos e senegalezes”, nas frentes do Mar do Norte à fronteira suíça.

 

Atrocidades

 

Tais soldados, de acordo com o relato da Gazeta, eram “gente criada em paizes onde a guerra é feita da maneira a mais grosseira e selvagem”, levando à Europa “os habitos de sua terra”. O argumento para tentar justificar o racismo vinha em seguida: os “soldados de cor”, “aos olhos do commando supremo dos exércitos inglezes e francezes têm commetido atrocidades”.

 

O jornal fala em “annexos” apresentados pelos alemães que atestariam a “conducta barbara das tropas auxiliares de cor da Inglaterra e da França”, que se tratavam na realidade dos exércitos coloniais dos dois países.

 

Diz a Gazeta que de tais documentos “deprehende-se” que tais tropas tinham o “barbaro costume” de levar “trophéos de guerra” do campo de batalha – “as cabeças e os dedos cortados aos guerreiros allemães”, além de “levar penduradas ao pescoço as orelhas cortadas, como si se tratasse de uma joia”.

 

Os “soldados de cor” se “approximam dos feridos allemães, arrancam-lhes os olhos, despedaçam-lhes o rosto com facas e cortam-lhes a garganta”, ilustra o jornal.

 

Indianos e turcos

 

Mais adiante as acusações passam a ser detalhadas por etnia. As “tropas indianas” cometiam as “atrocidades” com um “punhal bem afiado, que levam na bainha do sabre bayoneta”.

Os turcos, “ainda que estando feridos, arrastam-se pelo campo de batalha e assassinam, quaes animaes ferozes, os indefezos feridos que encontram”.

 

Para a Gazeta, era “incomprehensivel” que, mesmo “conhecendo a selvageria e a ferocidade dos senegalezes de cor”, os chefes militares franceses confiassem a eles o “transporte de prisioneiros allemães feridos”, favorecendo assim “o seu assassínio”.

 

Direito Internacional

 

O jornal reconhece não haver cláusula no Direito Internacional que proíba “expressamente o emprego de tribus de cor na luta”, desde que esses fiquem sob uma disciplina que “exclua todo acto contrario aos usos da guerra entre povos cultos”, o que não era o caso das “tropas de cor” empregadas pela Inglaterra e França, afirma a Gazeta.

 

Assim, com os alegados objetivos de “minorar os males inseparaveis da guerra e servir os interesses da humanidade e às sempre crescentes exigencias da civilização”, o jornal faz suas as palavras do “Governo allemão” e exige “energicamente que não se continue a empregar tropas de cor no theatro da guerra européa”.

 

YouTube Soldados de cor

 

“Nossos inimigos”

 

Em 1916 foi publicado na Alemanha um livro intitulado “Nossos Inimigos: 96 Cabeças Características de Prisioneiros de Guerra na Alemanha” (veja imagens ao lado), para reforçar a crítica ao uso de “soldados de cor” por parte dos impérios britânico e francês na Primeira Guerra Mundial.

 

Escolhidos entre os mais “exóticos”, os rostos tinham o objetivo de mostrar ao público alemão a “face do inimigo”, deixando claro que se tratavam de “estrangeiros maléficos”. A de número 31, por exemplo, mostra Gjemba Dialo, de St. Louis, no Senegal (veja ao lado). Na número 56, aparece Sultan Singh, de Mhow, na Índia (ao lado).

 

3,3 milhões

 

Na verdade, a estratégia de fazer uso de combatentes de suas colônias era uma tentativa de Inglaterra e França de reduzir a vantagem numérica – e por consequência militar – da Alemanha. Os alemães eram cerca de 80 milhões em 1914, enquanto no Reino Unido (incluindo a Irlanda) havia 46 milhões de pessoas, e os franceses eram contados em 39 milhões.

 

No lado britânico, nada menos do que 2,8 milhões de homens vindos dos territórios coloniais lutaram na Primeira Guerra Mundial, sendo 1,5 milhão só da Índia – os outros 1,3 milhão vinham das nações com privilégio de auto-governo dentro da chamada British Commonwealth (Austrália, Nova Zelândia, Canadá e África do Sul).

 

Entre os franceses, as tropas coloniais somaram 500 mil soldados, incluindo 166 mil da África Ocidental, 140 mil argelinos, 50 mil da Indochina, 47 mil tunisianos, 46 mil da Ilha de Madagascar e 24 mil marroquinos, entre outros.

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