História ao Vivo

Tragédia da Bósnia

ob o título “A tragedia da Bosnia”, a Gazeta do Commercio de julho de 1914 trazia notícias de um acontecimento que mudaria o rumo da história, mas que deve ter chamado bem pouca atenção dos leitores na época, dado que poucos por aqui deviam saber onde ficava aquele território encravado nos Bálcãs, no sudeste da Europa.

 

mapa-Bosnia-1922-jornal-retroO texto, publicado no dia 11, tratava dos interrogatórios policiais dos envolvidos no “attentado de Serajevo”, que 13 dias antes tinha resultado na morte do Arquiduque Franz Ferdinand (herdeiro ao trono do Império Austro-Húngaro) e sua esposa, em visita à capital bósnia.

 

O jornal dá conta da confissão do “typographo Gabrinawitch” em ter se associado ao “estudante Princip” no atentado, além da prisão de um outro estudante – o sérvio Grabe, que “fora encarregado de lançar uma bomba de dynamite” contra o carro do arquiduque, caso Princip “não conseguisse attingir o alvo com o seu revólver Browning”.

 

Para encerrar, a Gazeta dá sinais do que viria pela frente, ao afirmar que, “segundo as notícias recebidas de Serajevo, está sendo provado que o major sérvio Pribiserica foi o incitador da conspiração”.

 

  Gazeta do Commercio    11/07/1914 Gazeta-do-Commercio-11-07-1914-jornal-retroO assassinato do herdeiro austríaco provocaria uma escalada nacionalista e acionaria a cadeia de alianças europeia, levando ao início da Primeira Guerra Mundial, no mês seguinte.

 

OS FATOS

 

Franz Ferdinand e a esposa Sophie tinham planejado uma simples viagem protocolar de inspeção às tropas austríacas em Sarajevo, capital da Bósnia-Herzegovina, um antigo território do desmantelado Império Otomano, anexado pelos Austro-Húngaros em 1908.

 

A questão é que aquele domingo tinha caído no dia 28 de junho, uma data importante para os nacionalistas da vizinha Sérvia, por marcar a primeira Batalha do Kosovo, em 1389, quando os sérvios foram derrotados pelos turcos e forçados a declinar de suas ambições territoriais ao sul pelos próximos 500 anos.

 

  Arquiduque Franz Ferdinand    1863|1914 Franz-Ferdinand-Jornal-RetroPara piorar, Ferdinand e Sophie desfilavam em um carro aberto (veja o automóvel na seção Do Lambe-Lambe), com pouca segurança. A primeira tentativa de matá-los foi à bomba, atirada por um nacionalista sérvio, Nedjelko Cabrinovic (o “Gabrinawitch” citado pela Gazeta), que falhou em acertar os nobres, mas feriu um oficial da escolta.

 

  Gavrilo Princip    1894|1918 Gavrilo-Princip-jornal-retroMais tarde, no mesmo dia, o herdeiro austríaco resolveu visitar o militar ferido no hospital, acompanhado de sua comitiva. Ao atravessar o Rio Miljacka, por uma estreita passarela de pedra (a Ponte Latina), o motorista errou o caminho e teve de retornar de ré. Vendo a oportunidade se materializar à sua frente por puro acaso, um estudante bósnio de origem sérvia, Gavrilo Princip, sacou seu revólver e o descarregou quase à queima-roupa em direção a Ferdinand e a esposa. Ambos morreram a caminho do hospital e Princip foi preso.

 

YouTube O assassinato de Sarajevo

 

A GUERRA

 

O imperador austríaco, Franz Josef, decidiu aproveitar o incidente que levou à morte de seu sobrinho (Franz Ferdinand) para resolver a questão nacionalista eslava na fronteira sudeste do seu reino, apressando-se a culpar a Sérvia pelo atentado, enquanto garantia o apoio do kaiser alemão, William II, para sua causa.

 

Europa 1914mapa-Europa-1914-Jornal-RetroNo dia 28 de julho o Império Austro-Húngaro declarou guerra à Sérvia e em seguida invadiu o país. O problema é que a Rússia, aliada sérvia, mobilizou suas tropas e entrou em guerra com os austro-húngaros, o que arrastou a Alemanha a entrar no conflito, ao seu lado, invadindo os neutros Bélgica e Luxemburgo. Com isso, a França, aliada russa, declarou guerra à Alemanha – e o Reino Unido, aliado francês, fez o mesmo.

 

Pronto, estava montado o tabuleiro que levaria a cinco anos de conflito, cujo aniversário de cem anos de início se cumpriu em 2014. Ao final, mais de 16 milhões de pessoas morreram em razão da Primeira Guerra Mundial, cuja fagulha partiu do “revólver Browning” de Gavrilo Princip no “attentado de Serajevo” noticiado pela Gazeta.

 

MOBILIZAÇÃO GERAL

 

Em agosto, a Gazeta do Commercio traria uma notícia com uma das primeiras consequências da guerra na Europa para esse lado do Atlântico. Era nada menos do que uma ordem de “Sua Majestade” Franz Josef aos “austríacos e hungaros residentes nos Estados Unidos do Brazil”.

 

  Gazeta do Commercio    08/08/1914 Gazeta-do-Commercio-08-08-1914-Jornal-RetroFossem os pertencentes à “milícia de paiz” (Landwehr), os obrigados a se engajar “como praças de guarda nacional” (Landsturm) ou “os guardas nacionaes de 37 annos ou menos”, todos deveriam encaminhar-se “sem demora” ao respectivo “lugar de arrecadação na patria”. Tratava-se da convocação para a guerra.

 

Como consolo, o texto informava que os selecionados para “a entrada nas linhas” teriam restituídas as “respectivas custas de viagem”. Os que não tivessem dinheiro para pagar a passagem transatlântica, porém, não estavam isentos de apresentar-se ao combate – receberiam “uma ajuda do custo” do consulado.

 

Este era só o começo dos efeitos que o conflito

europeu teria sobre o dia-a-dia dos brasileiros – especialmente dos imigrantes, como se verá nas próximas edições...

 

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