História ao Vivo

Bonde a burro

epois da chegada do telefone (em 1907) e da luz elétrica (1909), Joinville estava prestes a dar mais um passo em direção à modernidade. Em janeiro de 1911, a Empreza Ferro-Carril Joinvillense começaria a prestar um serviço até então inexistente na cidade: o bonde.

 

O negócio era uma iniciativa da Grossenbacher & Trinks, a mesma companhia responsável pela telefonia joinvilense, e reunia quatro sócios - Gustavo Grossenbacher, Adolf Trinks, Luiz Ritzmann e Bernhard Olsen. Em meados do ano anterior eles já tinham começado a importar todo o material necessário da Europa e a partir da metade de 1910 os primeiros trilhos começaram a ser instalados (veja na foto abaixo).

 

colocacao-trilhos-bondes-francisco-nicodemus-1910-jornal-retrorua-do-principe-trilhos-bondes-burro-carrocas-1915-jornal-retroEm construçãoNa segunda metade de 1910, operários já instalavam os trilhos do bonde na Rua do Príncipe.Bondes e carroçasNessa outra foto da Rua do Príncipe, de 1915, vemos que os bondes e as carroças conviviam a contento na Joinville do começo do século XX.1 - 2<> Fonte: Arquivo Histórico de Joinville

 

Aos poucos foi chegando também o resto da encomenda, que incluía 16 bondes (oito destinados a levar passageiros e outros oito para carga). Puxados por dois burros, cada um dos carros de transporte público estava equipado com quatro bancos e tinha capacidade para acomodar 16 pessoas sentadas.

 

O serviço foi inaugurado com toda a pompa, no dia 29 de janeiro de 1911, com um desfile através das ruas enfeitadas com flores e até uma banda de música ambulante, transportada em um dos veículos. Se os joinvilenses nunca tinham visto um bonde antes, agora viam vários de uma vez só, que se alinharam um atrás do outro para percorrer o centro da cidade, puxados pelos trilhos recém-instalados.

 

Os felizardos que tinham sido convidados para tomar parte na viagem inaugural se reuniram em traje de gala à Rua do Norte (atual Rua João Colin), de onde partiria a excursão dos bondes. Ao observador atual parece haver algo fora de encaixe nas fotos do dia, que retratam homens de terno e gravata, mulheres de vestidos longos e chapéus de festa, ao longo de uma prosaica rua de terra (veja abaixo).

 

inauguracao-bondes-burros-joinville-1911-jornal-retroinauguracao-bondes-burros-joinville-1911-jornal-retrobondinho-puxado-burros-estacao-ferroviaria-empresa-carril-joinvilense-grossembacker-e-trinks-jornal-retroA inauguraçãoNo dia da inauguração do bonde, em janeiro de 1911, os “felizardos” convidados compareceram, em trajes de gala.Rua do NorteAlinhados um atrás do outro na Rua do Norte (atual Rua João Colin), os bondinhos iam sendo ocupados.Estação FerroviáriaAinda no dia da inauguração, os primeiros bondes completam o trajeto até a “Estação Terminal”, próxima ao terminal ferroviário, na então Rua Santa Catharina (atual Avenida Getúlio Vargas).1 - 3<> Fonte: Arquivo Histórico de Joinville

 

O trajeto

 

No início havia duas linhas em funcionamento, com extensão total de sete quilômetros, como vemos pelo anúncio publicado pela empresa no Commercio de Joinville, em março de 1911. A mais longa era a Linha Rua do Norte-Porto-Rua Santa Catharina, com os bondes circulando entre a Rua do Norte (atual Rua João Colin), onde ficava a “Estação Terminal”, e a Estação da Estrada de Ferro, ao lado da Rua Santa Catharina (atual Avenida Getúlo Vargas). O trajeto incluía a Rua do Meio (atual Rua 15 de Novembro), Rua cachoeira (Rua Princesa Isabel), Rua do Príncipe, Rua Humboldt (Rua 3 de Maio) e a Rua Mafra (Rua Conselheiro Mafra).

 

No trajeto mais curto, chamado de Linha Rua do Norte-Porto, os bondinhos passavam pela Rua do Meio (Rua 15 de Novembro), Rua do Porto (Rua 9 de Março), Rua Allemã (Rua Visconde de Taunay), Rua dos Atiradores (Rua Pedro Lobo), Rua da Escola (Rua Padre Carlos), Rua Mafra (Rua Conselheiro Mafra) e a “Estação do Vaporzinho”, que ficava na Rua Boussingault (Rua 7 de Setembro), próxima ao Mercado Municipal, de onde partiam e chegavam os vapores a São Francisco do Sul (leia mais na Edição 29 do Jornal Retrô).

 

Commercio-de-Joinville-11-03-1911-Empreza-Ferro-Carril-Joinvilense-Horario-do-bonde-inaugurada-em-29-01-mesma-firma-telefonica-Jornal-Retro Commercio de Joinville   11/03/1911

 

Os bondes circulavam entre 6h da manhã e 22h, com partidas a cada 20 minutos. Durante o dia, o trajeto era sinalizado por uma “tabuleta amarela” para a linha que seguia até a Estrada de Ferro, e outra vermelha, para a que ia apenas até o Porto. À noite, era só procurar pela “lanterna com vidro de côr” nas respectivas tonalidades.

 

O anúncio trazia ainda os preços das passagens – cada viagem custava 100 réis, mas também era possível comprar 100 viagens com 10% de desconto, ao preço de 9.000 réis, ou então adquirir o “Passe Livre”, que dava direito ao uso irrestrito do bonde durante “um mez” por 18 mil réis.

 

Ajustes e sorteio

 

No início os bondes atraíram a atenção dos joinvilenses, ávidos por experimentar a novidade de pongar no bonde, mas já em maio surgiam as primeiras dificuldades e os quatro sócios foram forçados a promover ajustes. Em um anúncio publicado no Commercio de Joinville, eles informavam à população que os carros da Linha Rua do Norte-Porto não seguiriam mais pela atual Rua João Colin, tendo seu ponto final à Rua do Meio (Rua 15 de Novembro). Já os bondinhos da outra linha, “durante os mezes do inverno”, seriam recolhidos mais cedo (às 21h20 e não mais às 22h).

 

A companhia também pedia que os usuários conservassem o bilhete, porque “d’ora em diante aquelles que não mostrarem coupons deverão pagar outra vez.” No mesmo anúncio eram informados os dois ganhadores da promoção mensal que a Empreza Ferro-Carril lançara na tentativa de atrair mais passageiros, sorteando valores em dinheiro. O portador do bilhete “N. 2 S. 5 encarnado” levara 10.000 réis e quem tinha o “N. 131 S. 27” iria embolsar 5.000 réis.

 

Alerta aos chefes de família

 

Embora os bonds tenham caído nas graças da cidade logo de início, uma nota do Commercio de Joinville (de agosto de 1911) mostra que ainda seria preciso algum tempo para que todos se adaptassem à novidade. O jornal fazia um alerta aos “Srs. chefes de familia”, para que “recomendem a seus creados” mais cuidado ao acompanhar crianças.

 

O motivo do aviso era um incidente acontecido em um domingo, “à Rua do Norte, em frente a casa do Sr. Augusto Urban”. O Commercio dizia que “devido à impericia de uma criada”, uma criança “quase foi morta por um bond”. O jornal isentava de culpa o cocheiro, relatando que a “creança corria ao lado do vehiculo e cahio” sob as pernas de um dos burros que puxava o carro. Por sorte o animal se assustou com o movimento e “desviou de pizar a criança”.

 

Dificuldades financeiras

 

Menos de nove meses depois de inaugurado, o primeiro serviço de transporte público de Joinville já estava ameaçado de ser interrompido. Em outubro de 1911, a Gazeta de Joinville publicou uma nota para informar a seus leitores de novas mudanças nas linhas dos bondes, dessa vez mais drásticas. A partir do mês seguinte, nenhuma das duas linhas teria mais carros circulando pela Rua do Norte (Rua João Colin) e a estação central seria transferida para a Rua do Meio (Rua 15 de Novembro). Além disso, a frequência dos bondes passava a ser de hora em hora e não mais de vinte em vinte minutos.

 

Os ajustes eram mais uma tentativa dos sócios no negócio em fazer frente às dificuldades financeiras. A Gazeta lamentava que a “Empreza não tenha podido tirar resultado compensativo dos esforços para nos proporcionar tão grande melhoramento” e fazia um apelo ao “commercio, tão generoso como sabe ser”. O jornal convidava os comerciantes a “amparar” a companhia prestadora do serviço, estabelecendo “contracto para conducção de cargas”, que segundo o texto era o “único meio de poder ella sustentar-se em face da falta de passageiros”, dizendo estar certo de que o “commercio virá em auxílio da Empreza”.

 

bancadas-com-amostras-de-cafeBondes em filaE no dia da inauguração os bondes se alinharam um atrás do outro na Rua do Príncipe (o primeiro deles transportava a banda de música, como se vê na foto). Fonte: Arquivo Histórico de Joinville

 

Sem cuspir

 

De alguma maneira os proprietários conseguiram equilibrar as contas, porque o serviço continuou ativo, embora com mais ajustes sendo necessários dois anos mais adiante. Em janeiro de 1914, a Empreza Ferro-Carril Joinvillense publicava na Gazeta do Comércio uma nova tabela de horários, definidos por dias da semana. A companhia também decidiu reduzir alguns preços – embora o bilhete comum seguisse custando 100 réis, o desconto para compra de 100 passagens passava a ser de 20% (pagava-se agora 8.000 réis, comparados aos 9.000 réis da inauguração), e o Passe mensal valia 12 mil réis (contra 18 mil anteriormente).

 

Gazeta do Comércio   06/01/1914 Gazeta-do-Comercio-06-01-1914-Empresa-Ferro-Carril-Joinvilense-Recomendacoes-de-comportamento-no-bonde-2-Jornal-Retro

 

A empresa apresentava uma inovação, oferecendo a primeira versão do “passe escolar” em Joinville: os pais podiam comprar 100 bilhetes de bonde para “creanças escolares” por 4.000 réis.

 

Mesmo com todos os ajustes, a primeira experiência de transporte público em Joinville não duraria muito. Pouco mais de seis anos depois de iniciar o serviço de bonds e sem obter os resultados esperados, em 1917 a Empreza Ferro-Carril resolveu encerrar suas atividades. Em pouco tempo os trilhos começaram a ser arrancados das ruas centrais – os burricos davam lugar aos automóveis, que começavam a chegar à cidade. Em setembro do ano seguinte, como vemos pelo anúncio publicado em “O Dia”, um dos sócios ainda tentava vender os trilhos “de puro aço”, por “preços vantajosos”.

Commercio-de-Joinville-27-05-1911-EFCJ-Sorteio-de-bilhetes-do-bonde-Jornal-Retro

Commercio de Joinville

  27/05/1911

Commercio-de-Joinville- 05-08-1911-O-perigo-do-bonde-Jornal-Retro

Commercio de Joinville

  05/08/1911

Gazeta-de-Joinville-28-10-1911-Mudancas-no-Bonde-Ligado-ao-Commercio-de-Joinville-2-Jornal-Retro

Gazeta de Joinville

  28/10/1911

o-dia-florianopolis-25-09-1918

O Dia

  25/09/1918

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