Acredite se Puder

Os Invisiveis

Commercio de Joinville colocava em ação uma prática surpreendentemente ardilosa – e pouco ética - para ampliar seus ganhos com publicidade e ao mesmo tempo tentar potencializar o efeito de dois dos seus anúncios, em uma edição de outubro de 1911. Tudo começava com um texto que ocupava duas colunas, sob o título em chamativo negrito: “Os Invisiveis”.

 

A notícia, que o Commercio dizia ser a reprodução de um material publicado anteriormente pelo Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro, dava conta de um “mysterio desvendado”. Segundo o relato, as informações que tinham sido “ministradas à autoridade” eram suficientes para “trazer a lume esclarecimentos sobre assumptos que de há muito vêm preocupando o espirito publico”.

 

Qual era o mistério? Dizia o Commercio tratar-se “desses annuncios que aparecem commummente” nos jornais, com o título “Os Invisiveis”, e “em letras garrafais”. O jornal informava que, “como se sabe”, haviam sido realizadas “curas maravilhosas” sem “maiores despesas”.

 

Commercio de Joinville    14/10/1911 Commercio-de-Joinville- 14-10-1911-Os-Invisiveis-Anuncio-sutil-Jornal-Retro

 

Como funcionava isso? Pessoas escreviam uma carta aos “Invisiveis”, acompanhada do “sello para a resposta”, e recebiam de volta medicamentos. O “mais interessante na questão”, afirmava o jornal, era que “Os Invisiveis” estavam fazendo “curas verdadeiramente assombrosas nas molestias do apparelho respiratorio e nas enfermidades das senhoras”.

 

“O embuste”, porém, explicava o Commercio, tinha sido esclarecido. O que “Os Invisiveis” enviavam a quem lhes escrevia eram “preparados muito conhecidos” e de “reputação firmada”. Quais? Eram “Bromil” e “A Saude da Mulher”, ambos fabricados pelos “Snrs. Daudt & Lagunilla”.

 

Pelos três parágrafos seguintes o texto se dedica a derramar elogios aos dois remédios, “cuja fama já transpoz as fronteiras do Brazil”, sendo receitados “em paizes da America e da Europa”. Dizia o jornal que “em todo o territorio nacional as senhoras para os seus incommodos preferem, com razão e justiça, ‘A Saúde da Mulher’”, e que “não há por ahi pessoa alguma que, tendo um começo de tosse, uma bronchite ou qualquer perturbação no apparelho respiratorio, não se lembre logo do ‘Bromil’”.

 

Por fim, o texto afirma que os dois “preparados” eram “talvez os unicos” que podiam se “ufanar de contar com o attestado de quinhentos medicos brasileiros”, que reconheciam “sua excellencia” e recomendavam seu uso “com a responsabilidade do seu grau”.

 

Cartaz de Bromil na revista Careta (1909) careta-bromil-jornal-retro

 

Anúncio casado

 

Surpreso com a solução do mistério de “Os Invisiveis”, algumas páginas adiante o leitor curiosamente se depara com dois anúncios lado a lado, na mesma edição do Commercio de Joinville, ocupando mais ou menos o mesmo espaço do texto descrito acima. Mas que coincidência! Eram propagandas de “A Saude da Mulher” e “Bromil”...

 

No primeiro, duas crianças caricatas pareciam dizer: “Mamãe manda dizer que ficou bôa com ‘Saude da Mulher’”. Logo abaixo é transcrita uma carta de uma tal Maria José Calazans, intitulada “Opinião de uma Senhora” e enviada de Larangeiras (Sergipe). No relato, ela afirmava ter ficado “completamente restabelecida de uma antiga colica uterina” com seis vidros do medicamento. Mais abaixo, assinada pelo laboratório Daudt & Lagunilla, surge o detalhamento do que o remédio prometia curar, em sua maioria “incommodos de senhoras, em qualquer edade”. Fossem “suspensões, flores-brancas, colicas uterinas, hemorrhagias, irregularidades menstruaes” e até “casos de rheumatismo”, as “melhoras se manifestam às primeiras doses”.

 

No anúncio de Bromil, a ilustração é de uma mulher cercada de crianças, sob o dizer: “Era uma vez a tosse”. Nesse caso, o depoimento de cura vinha de Pelotas (Rio Grande do Sul), assinado por Manoel Ferraz Vianna. O remetente agradecia aos “Snrs. Daudt & Lagunilla”, atestando que seus filhos “Nahir, Haydeo, José, Ibsen e Bethilde”, que estavam com coqueluche, “ficaram radicalmente curados com o uso do vosso conhecido xarope”.

 

Logo abaixo, o laboratório afirma que ao “attestado acima” faziam “côro mais de mil outros, de enfermos e médicos”, todos comprovando que “o Bromil é o grande remedio para curar asthma, bronchites, rouquidão e qualquer tosse”. No tratamento da coqueluche, dizia o anúncio, Bromil chegava a “ser maravilhoso: acalma os acessos, evita e alivia as sufocações, curando em poucos dias”.

 

Como se vê, a prática de publicar matérias elogiosas a empresas, produtos e até políticos para assegurar receita publicitária já passa dos cem anos na imprensa brasileira...

Commercio-de-Joinville-14-10-1911-Saude-da-Mulher-e-Bromil-Ligados-a-Os-Invisiveis-2-Jornal-Retro

Commercio de Joinville 

  14/10/1911

Commercio-de-Joinville-14-10-1911-Saude-da-Mulher-e-Bromil-Ligados-a-Os-Invisiveis-3-Jornal-Retro

Commercio de Joinville 

  14/10/1911

Siga-nos!