História ao Vivo

Quase rally

m julho de 1917 a Gazeta do Commercio trazia a notícia de uma “Viagem de Automovel” que tinha sido realizada no domingo anterior. O que hoje é a coisa mais trivial possível, há quase cem anos era qualificado como uma “excursão de ensaio”: o trajeto entre Joinville (SC) e Curitiba (PR).

 

O jornal conta que o “auto Chevrolet” cumpriu o percurso em “10 horas e 20 minutos”, apesar de “acharem-se em pessimo estado as estradas de rodagem”, e o veículo contar com “excesso de peso, pois não só os seus cinco lugares eram occupados por adultos, como ainda conduzia bagagem com peso superior ao de mais um passageiro”.

 

Para acrescentar um pouco mais de dificuldade, dizia a Gazeta que “esta viagem foi feita em parte de noite e por caminhos desconhecidos”, o que obrigou a “direcção a diminuir a velocidade”.

 

Fonte: Arquivo Histórico de Joinville   CombustívelNão havia asfalto e – claro – muito menos postos de gasolina na estrada. Assim, era preciso levar todo o combustível necessário para a viagem a bordo, em latas ou no que fosse possível.

 

O trajeto

 

Antes de caçoar da lentidão do glorioso “auto Chevrolet” é preciso levar em conta alguns fatores. É verdade que hoje se cumpre os 130 quilômetros de Joinville a Curitiba em pouco mais de uma hora e meia, mas em 1917 ainda não existia a BR 376, que segue um caminho quase em linha reta entre as duas cidades, serra acima.

 

Naquele tempo a única rota possível era seguir pela Estrada Dona Francisca, primeiro rumo oeste, galgando o Planalto Norte até Mafra (SC). Dali cruzava-se a fronteira paranaense e continuava-se no sentido norte, até a capital do Estado.

 

Fonte: Arquivo Histórico de Joinville   A estradaAssim era a Estrada Dona Francisca no início do século XX, quase uma picada de chão batido aberta no meio da mata. E esse nem é dos trechos mais íngremes do caminho...

 

Nas condições dos nossos dias, esse roteiro tem aproximadamente 250 quilômetros – e nas estradas pavimentadas atuais leva em torno de quatro horas para ser percorrido, dada a considerável declividade da pista em alguns pontos. Naquele tempo, porém, não havia asfalto...

 

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A Gazeta afirma que “pelas observações feitas pelos excursionistas”, estava provado que o “auto Chevrolet” podia “fazer normalmente esta viagem em 9 horas, por ser um carro relativamente leve e resistente, supplantando assim outros automoveis maiores e muito mais caros que teem feito a mesma viagem quase sempre com accidentes e estragos materiaes”.

 

Fonte: Arquivo Histórico de Joinville   AventuraComo se vê, o terreno nem sempre era transitável. Alguns cavalos extras de potência às vezes eram necessários.

 

A cascata de elogios do jornal ao carrinho explica-se a seguir. Na quarta página da mesma edição havia um anúncio do “Automovel Chevrolet” (veja em Acredite se Puder), cuja “representação exclusiva para os estados de Santa Catharina e Paraná foi confiada ao snr. Carlos Haberer”.

 

Não por acaso, Carlos Haberer e Jean Knatz eram precisamente dois dos cinco senhores que promoveram aquele quase rally Joinville-Curitiba.

Gazeta do Commercio

  21/07/1917

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