História ao Vivo

Hospital seletivo

m abril de 1916 a Gazeta do Commercio publicava um documento que permite espiar como funcionava a saúde pública há um século: o “Regulamento para o Hospital Municipal de Joinville” – trata-se do atual Hospital Municipal São José, que agora completa 110 anos de vida. Longa e detalhada, a peça determinava como deveria funcionar o principal centro de tratamento da cidade, dividindo a administração entre o “Superintendente Municipal (equivalente ao prefeito atual)”, o “Director do Hospital” e a “Irmã Superiora”. Mas interessante mesmo são os regulamentos que falam dos tratamentos.

 

O Artigo 14, por exemplo, estipula quem podia ou não ser internado no hospital – e os procedimentos para isso. Para “a admissão”, dois requisitos eram necessários: uma licença “por escripto” do diretor e o “attestado do medico-chefe”, certificando “não soffrer o paciente de molestia infecciosa ou suspeita”.

 

Fonte: Arquivo Histórico de Joinville   Hospital de CaridadeAssim era o Hospital de Caridade, construído no terreno doado pelo Padre Carlos, em 1906.

 

Em “casos urgentes” até poderia ser feita a internação sem o “attestado” – uma “ordem verbal do Director” seria suficiente, dizia o Artigo 15, “sendo logo no dia seguinte preenchidas as formalidades prescriptas”. Quanto às moléstias admitidas, porém, não havia exceção.

 

O item seguinte, de número 15, listava as doenças que não seriam em hipótese alguma tratadas ali: “peste, cholera-morbus, variola, febre amarella, diphteria, tuberculose, escarlatina” ou outras “molestias infecto-contagiosas, contra as quaes o Hospital não tenha recursos de defeza”.

 

Miserável oficial

 

Mais adiante, no Artigo 17, o regulamento estabelece as duas categorias de pacientes que existiam na enfermaria: “indigentes ou diaristas”. Para que um indivíduo fosse “aceito como indigente” – e consequentemente, internado gratuitamente – seria preciso apresentar um “attestado de mizerabilidade”, devidamente assinado pelo “inspector de quarteirão”, pelo “Zelador municipal” ou por “duas pessoas abonadas do districto em que morar”.

 

O “enfermo” que tivesse “meios para custear os honorarios de um medico” ou “bens de raiz de algum valor” não poderia ser “considerado como indigente”, portanto pagaria por seu tratamento ao hospital, informava o Artigo 19. As diárias, que dependiam do “estado de fortuna do paciente, a gravidade da molestia e as exigencias do tratamento”, variavam de 2.000 a 5.000 réis, alcançando 6.000 réis para quem desejasse um quarto separado.

 

O pagamento deveria ser feito quinzenalmente - e sempre adiantado. Se o paciente desejasse manter consigo um acompanhante no hospital, para “que lhe preste serviços de enfermeiro”, isso seria permitido, mas “essa dita pessoa” também estaria sujeita a pagar “uma diaria nunca inferior a 2.000 réis”.

 

Breve historia

 

O Hospital Municipal surgiu como Hospital de Caridade, no dia 4 de junho de 1906, construído em um terreno doado pelo Padre Carlos Boegershausen à Congregação das Irmãs da Divina Providência, após sua morte, no mesmo ano. É o mesmo terreno, na Avenida Getúlio Vargas, em que o centro médico está até hoje.

 

Em 1915, a população joinvilense crescia e a demanda por tratamento médico aumentava, o que levou o hospital a ser expandido: ganhou uma nova ala para enfermaria e teve algumas dependências reformadas.

 

O prédio atual de cinco pavimentos, no entanto, só começaria a ser construído em 1963 – ficaria pronto seis anos depois, inaugurado pelo presidente Costa e Silva, já no regime militar.

 

Atualmente, o Hospital São José responde por uma área de influência de cerca de um milhão de habitantes, compreendendo Joinville e o Norte de Santa Catarina. É o hospital de referência em urgência e emergência, tratamento intensivo, neurocirurgia, oncologia, ortopedia e traumatologia.

 

Fonte: Hospital São José   Hospital São JoséNessa foto atual se vê um pátio interno do Hospital São José, em que aparece a ala que ainda resta do original Hospital de Caridade.

 

Código de conduta

 

Voltando ao regulamento de 1916, o segmento “Disposições geraes” trazia ainda as regras de comportamento para os doentes, listadas no Artigo 33. Era “expressamente prohibido cuspir no soalho, nas paredes ou no leito”. Para os que precisassem limpar a garganta, haveria “por todas as salas do hospital escarradeiras rigorosamente desinfectadas”.

 

Fumar “dentro do edificio”, claro, não era permitido, assim como retirar do hospital “qualquer objecto ou utensilio, salvo casos especialissimos a juízo do Director e da Superiora”, pelo que teria que ser feito um recibo e depois a justa restituição.

 

Por fim, o Artigo 34 definia os horários em que os médicos passariam em visita aos pacientes, das 8h às 9h30 da manhã. Era esse também o momento em que os “indigentes não internados no hospital” poderiam “procurar assistencia medica”...

Gazeta do Commercio

  15/04/1916

Gazeta do Commercio

  15/04/1916

Gazeta do Commercio

  15/04/1916

  •   Padre Carlos

    Nascido em Hannover (Alemanha), Carl Boegershausen - ou Padre Carlos, como ficou conhecido - comandou a Igreja Católica em Joinville de 1857 a 1906, quando morreu. Além do terreno doado que se transformou no Hospital de Caridade, ele também foi um pioneiro da educação na cidade, criador de uma escola paroquial e cedente de uma área onde seria erguido o “Grupo Escolar” Conselheiro Mafra, o primeiro colégio público de Santa Catarina (veja na Edição 17 do Jornal Retrô).

Fonte: Arquivo Histórico

de Joinville

Gazeta do Commercio

  15/04/1916

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