História ao Vivo

No início era o vapor

m novembro de 1878, a Gazeta de Joinville trazia aos seus leitores uma notícia alvissareira e fresquinha, da véspera, quando, dizia o jornal, “vimos entrar em nosso porto o primeiro vapor que sulcou as aguas do Rio Cachoeira”. Era a primeira embarcação movida a motor a alcançar Joinville (SC) e - ao que se esperava – o início da modernização dos transportes na cidade.

 

Tratava-se de um pequeno vapor de 14 metros de comprimento por 2,5 metros de largura, com capacidade de transportar até cinco toneladas, “além do combustivel necessario”. Tinha calado de um metro de profundidade e “força nominal” de “28 cavallos inglezes”. O barquinho tinha sido adquirido por Frederico Brustlein, o diretor da Colônia Dona Francisca na época, diretamente do Porto de Le Havre, na França, onde funcionava como rebocador.

 

Com nome original de Vedette, foi imediatamente nacionalizado para Babitonga ao chegar a Santa Catarina. O objetivo era “manter a communicação regular” entre o porto de São Francisco do Sul, Joinville e Paraty (atual Araquari), como previa um contrato assinado entre Brustlein e o governo provincial (estadual).

 

Fonte: Arquivo Histórico de Joinville   BabitongaNavegando com galhardia pelo Rio Cachoeira – e soltando vapor pela única chaminé – o Babitonga foi o primeiro vapor a operar entre Joinville e São Francisco do Sul.Babitonga-jornal-retro

 

A jornada

 

A travessia entre o litoral francês e o catarinense, porém, não foi fácil. A Gazeta conta que primeiro o vapor atravessou o “canal la Manche” até a Inglaterra, onde teve de esperar por uma “barca Sueca” para o Rio de Janeiro – seu tamanho não permitia o transporte em um dos grandes vapores de linha, teria que ser trazido ao Brasil no porão de um veleiro.

 

Depois da travessia transatlântica, o Vedette partiu da então capital brasileira em direção a Joinville no dia 8. O encarregado da missão foi o “habil capitão francez Blomme”, que veio ao Brasil só para isso.

 

Na altura de Santos, a embarcação “apanhou um forte temporal”, o que a obrigou a entrar no porto e lá ficar durante quatro dias. Retomada a viagem, novo percalço meteorológico forçou o capitão Blomme a atracar na Ilha do Abrigo, próxima a Cananeia (SP). Só no dia 17, às 10h da manhã, o já Babitonga alcançou São Francisco do Sul - às 22h do mesmo dia, aportou “no barranco do rio no largo do porto” de Joinville.

 

Sempre a burocracia

 

O barquinho já estava em águas joinvilenses, mas o início da operação da Empresa de Navegação a Vapor demoraria ainda mais de um ano e meio – foi o tempo que levou para Frederico Brustlein conseguir a necessária concessão do governo da Província de Santa Catarina.

 

Em junho de 1880, finalmente, a Gazeta de Joinville publicava um anúncio a pedido da companhia, informando ao “respeitavel publico” que as viagens entre São Francisco do Sul e Joinville teriam início no dia 2.

 

As “carreiras ordinarias” aconteceriam às segundas, quintas e aos sábados, e as extraordinárias quando chegassem “vapores da linha intermediaria e da linha de Hamburgo”, no porto de São Francisco do Sul.

 

Fonte: Arquivo Histórico de Joinville   A EstaçãoEra dessa estrutura, às margens do Rio Cachoeira, em Joinville, que partiam os vapores entre a cidade e o porto.Estacao-de-Vapores-jornal-retro

 

Respeito à maré

 

Os horários das viagens não eram fixos, porque era preciso levar em conta a maré – o trajeto pelo Rio Cachoeira só era possível quando ela estava cheia, o que acontece aproximadamente a cada 12 horas. Como o efeito da Lua sobre o mar vai mudando de horário dia a dia, era preciso escalonar as partidas do Babitonga de acordo com a tabela, sempre saindo de Joinville pela manhã e retornando de São Francisco do Sul à tarde.

 

O anúncio da Gazeta dizia que em Joinville “as horas de sahida” seriam avisadas na véspera, até às 16h, em três pontos: na “estação do vapor”, à Rua Boussingault (atual Rua 7 de Setembro), na “estação telegraphica”, à “Rua do Caxoeira” (hoje Rua Princesa Isabel) e na “casa do Snr. A. Beck”, à Rua de São Pedro (atual Rua Ministro Calógeras). As escalas também seriam “communicadas aos donos dos hoteis se quizerem”.

 

O trajeto de Joinville ao porto, a favor do curso do rio, era cumprido em duas horas – o retorno, a jusante, demorava duas horas e meia.

 

Fonte: Arquivo Histórico de Joinville   EmbarqueA foto mostra o momento de um dos embarques no Babitonga, na Estação de Vapores de Joinville.Embarque-jornal-retro

 

Via fluvial

 

A importância da entrada em operação do Babitonga na época pode ser explicada de forma simples: a única via de ligação entre Joinville e o mundo externo era o Rio Cachoeira, e depois o Porto de São Francisco do Sul.

 

Em 1880, a primeira conexão da cidade com Curitiba (PR), a Estrada Dona Francisca, ainda estava em construção, e não existia caminho por terra em direção à capital catarinense, Florianópolis. A estrada de ferro, vinda do ramal de São Francisco do Sul, só alcançaria as terras joinvilenses mais de 25 anos depois...

 

O rio era a estrada que conectava a cidade ao resto do país. De olho nisso, três anos depois de inaugurar sua linha de vapores, Frederico Brustlein decidiu expandir os negócios e construir um estaleiro em Joinville, onde fabricaria sua segunda embarcação, o Dona Francisca (veja em Do Lambe-lambe). Lançado diante de uma multidão, em outubro de 1883, o barco era maior que o primeiro, com capacidade de transportar 18 passageiros na cabine e 40 no convés.

Gazeta-de-Joinville-19-11-1878-Navegacao-a-vapor-Primeiro-vapor-em-Joinville-Jornal-Retro

Gazeta de Joinville

  19/11/1878

Gazeta-de-Joinville-08-06-1880-inicio-dos-vapores-Joinville-Sao-Chico-Jornal-Retro

Gazeta de Joinville

  08/06/1880

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