História ao Vivo

Primeiras regras

eza a lenda que o futebol foi introduzido no Brasil pelo bigodudo Charles Miller (embora existam estudiosos que discordem). Nascido em terras brasileiras, filho de pai escocês e mãe de origem inglesa, ele foi mandado às ilhas britânicas para estudar, de onde retornou a São Paulo dez anos depois, com algumas bolas usadas, um par de chuteiras e um livro contendo as regras do football. Em abril de 1895, Miller participou do que teria sido a primeira partida oficial no país, entre a empresa de gás e a companhia ferroviária da capital paulista, na Várzea do Carmo, bairro do Brás.

 

Quase 20 anos depois, no entanto, o glorioso livro trazido por Miller ainda não tinha tradução para o português. É o que nos conta uma notícia publicada pela Gazeta do Commercio, em março de 1915, transcrevendo informação publicada por um jornal carioca: achava-se no prelo a primeira versão em português das “Regras do Foot-Ball”, na versão “Association”. Naqueles tempos a prática ainda se confundia com o rúgbi, esporte de origem comum, só que jogado mais com as mãos do que com os pés - e com uma bola oval. As regras do “Association” foram as que derivaram para o futebol moderno.

 

charles-miller-jogando-Jornal-Retro Fonte: Daily Mail   Charles Miller em açãoO bigodudo Charles Miller aparece em campo (é ele com a bola, ao centro da imagem), nessa foto de 1901. Trata-se de uma partida entre os selecionados dos estados de São Paulo e Rio de Janeiro.

 

Eram tempos em que os termos em inglês recheavam a prática. Juiz era referee, um jogador que desequilibrava se tratava por crack (de onde vem o nosso “craque”), impedimento se dizia offside, center-half era o atacante centralizado (abrasileirado depois para “centroavante”) e aos defensores denominava-se backs (daí para “beque” foi um pulo). Assim, a primeira versão em português das regras tinha sido traduzida pelo footballer (futebolista) Dr. Belfort Duarte (jogador e depois dirigente ilustre do América Futebol Clube, do Rio de Janeiro) e editadas pelo sportman Roberto Rochtort.

 

As expectativas com a publicação eram elevadas, nada menos do que ver “resolvidas todas as questões de foot-ball do Brazil”. Finalmente teríamos em português “regras, decisões officiaes, instrucções aos referees (árbitros) e instrucções aos captains (capitães)”, além de “um regular número de desenhos, demonstrando diversas jogadas”.

 

Viva o Foot-Ball

 

Com menos de 20 anos de Brasil, o futebol já despertava discussões apaixonadas. A polêmica, no entanto, não recaía sobre lances de partida ou decisões do juiz, girava em torno da natureza do jogo em si, considerado muito ríspido... É o que se vê por um texto (um tanto truncado) publicado pela Gazeta do Commercio, em outubro de 1915.

 

O autor admite logo de cara ser o Foot-Ball “violento em sí”, mas em seguida dá início à sua defesa do esporte, colocando-se entre os que enxergam a importância do “esforço physico” para a “mocidade sedentária, o melhor meio para desenvolver a sua energia”.

 

Ele vai além, resvalando para a filosofia ao afirmar que “em verdade, o foot ball é um jogo de violentos”, e “é mesmo por essa razão que tanto amor lhe temos”. O argumento prossegue com inspiração aparente no filósofo alemão Friedrich Nietzsche, atenuada pelo que seriam benefícios sociais da prática: “Consideramos um dever amar os violentos”, e a estes, diz o autor, “o foot ball ensina a dominar-se, a experimentarem a disciplina da equipe, a sacrificarem-se em vantagem comum”.

 

Na parte final, ele escancara seu lado na discussão: “Deixamos os queixumes para os fracos, as ironias para os desalentados, os receios aos pusilânimes. E viva o foot ball!!” Assinado, Zé Sportman.

 

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Gazeta-do-Commercio- 24-03-1915-Verdadeiras-regras-do-Association-Primeira-versao-em-portugues-Jornal-Retro

Gazeta do Commercio

  24/03/1915

Gazeta-do-Commercio- 06-10-1915-Foot-Ball-Defesa-do-Sport-para-os-fortes-Jornal-Retro-1

Gazeta do Commercio

  06/10/1915

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