História ao Vivo

Guerra no dia a dia

a sua primeira edição posterior à declaração de guerra, em novembro de 1917, a Gazeta do Commercio (que era semanal) trazia as primeiras consequências diretas da entrada do Brasil no conflito para os imigrantes alemães e seus descendentes, especialmente em Joinville (SC). As ordens vieram do governo do Estado de Santa Catarina e o “Snr. Dr. Superintendente” Arthur Ferreira da Costa “mandou-as cumprir”.

 

As escolas alemãs foram “intimadas a fechar” ou a ensinar “exclusivamente em portuguez”. Lojas e outros estabelecimentos comerciais com “reclames allemães” trataram de recolhê-los. As sociedades “teuto-brasileiras”, que tiveram papel essencial nos primeiros anos da colonização e serviam muitas vezes como único centro de socialização, “suspenderam seu funccionamento”.

 

Segundo o jornal, “tudo vae em ordem sem que se tenha notado a minima perturbação”. A população de Joinville, dizia a Gazeta, que não era “menos patriota” que em outros lugares, exprimia “na ordem civica” e “no respeito das leis” seu patriotismo.

 

Marinheiros detidos

 

Ocorre que no momento da declaração da guerra, havia em Joinville marinheiros antes engajados em alguns dos 46 navios alemães e austríacos ocupados pelo governo brasileiro, fato ocorrido em abril, depois do torpedeamento dos vapores Paraná e Tijuca por submarinos germânicos (veja na Edição 10 do Jornal Retrô. A foto da capa dessa edição é da fragata Henriette, uma das embarcações apreendidas). Por “ordem do Governo”, esses homens deveriam ser detidos.

 

Navios-confiscados-21-04-1917-Careta-Jornal-Retro Fonte: Careta 21/04/1917   Ocupação militarA Marinha brasileira em ação, tomando posse de um dos 46 navios confiscados à Alemanha, que estavam ancorados em portos do país.

 

A Gazeta informava que “22 pessoas apresentaram-se às autoridades” e foram recolhidas ao “forum desta cidade”, guardadas pelos “briosos soldados do Tiro 226”. Os marinheiros foram embarcados no “trem da tabella”, para serem encaminhados a Florianópolis, sendo acompanhados por “20 homens do Tiro”.

Veja abaixo alguns dos navios alemães apreendidos pelo governo brasileiro:

 

Cap. RocaCarl WoermannCoburgEbernburgEtruriaGutwas, WersemnHohenstaufenPosenRolandSierra Salvada1 - 10<> Fonte: Careta   21/04/1917

 

Teuto-brasileiros

 

Em 1917, alemães e descendentes formavam a maioria da população de Joinville, pouco mais de 60 anos depois da fundação da cidade como uma colônia germânica de fato. A língua alemã era corrente nas ruas e não era pequena a quantidade de gente que falava mal – ou nem falava – o português. Nessa conjuntura, pode-se imaginar o impacto do fechamento de escolas que não ensinavam na língua nativa.

 

Assim, na semana seguinte ao ingresso do Brasil na guerra, o superintendente municipal foi inundado de pedidos das escolas alemãs para reabrir seus estabelecimentos. Uma a uma, Ferreira da Costa respondeu às solicitações, transcritas nos “Actos do Illmo. Snr. Superintendente Municipal”, reproduzidos pela Gazeta.

 

Ao Padre José Sundrup, diretor do “Collegio Parochial de Joinville”, o superintendente concedeu licença para reabrir a escola, mas proibia “expressamente” a “divisão attentatoria dos nossos sentimentos de nacionalidade de classes de brasileiros e de teuto-brasileiros, porquanto todos são brasileiros”.

 

  Fonte: Arquivo Histórico de Joinville   Collegio ParochialO antigo Collegio Parochial de Joinville teve seu prédio inaugurado em 1914 (a foto é do dia da cerimônia). A escola mudou de nome nos anos 30, para o atual Colégio dos Santos Anjos. O edifício seria parcialmente demolido na década de 70, quando foi aberta a Avenida Juscelino Kubitschek - a construção ia até o canteiro central da via.escola-parochial-Jornal-Retro

 

Sem divisão

 

Na prática, o que Ferreira da Costa queria dizer é que ficava proibido dividir os alunos, entre os que falavam alemão e os que falavam português. Todos deveriam “ser instruidos em conjunto”, recebendo o mesmo ensino “em lingua vernacula, sem distincção de raças”.

 

A mesma resposta receberam Clemens Schmidt (professor da “Escola da Sociedade Escolar Rua S. Catharina”), Camilla e Sidonia Lauer (diretoras e professoras do “Collegio Lauer Irmãs”), Padre Pedro Franke (diretor e professor do “Collegio Parochial Jaraguá”), João Wagner (diretor e professor da “Escola Itapocusinho”) e Henrique Mazzolli (professor da “escola particular Retorcida”).

 

O superintendente esclarecia, porém, que todas as autorizações eram temporárias. A verificação se as escolas seguiam as exigências de ensinar em português e sem separar os alunos seria momentaneamente feita pelo “Snr. Director do Grupo Escolar Conselheiro Mafra”, até que chegasse o “Snr. Inspector do Ensino”.

 

A interferência nas escolas alemãs (que, aliás, eram particulares) ainda não estava encerrada - iria se aprofundar, como se verá nas próximas edições.

 

Gazeta-do-Comercio-03-11-1917-Brasil-na-Guerra-Medidas-em-Joinville-Ligado-a-28-10-Jornal-Retro

Gazeta do Commercio

  03/11/1917

 

Gazeta-do-Commercio-10-11-1917-Actos-do-Superintendente-(Escolas-reabertas-ligado-a-Brasil-na-Guerra-Jornal-Retro

Gazeta do Commercio

  10/11/1917

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