História ao Vivo

Os gafanhotos

possível acreditar que o sul do Brasil sofria com o ataque de gafanhotos há cem anos? Pois o Commercio de Joinville traz um relato emocionante do que diz ser a primeira chegada desses bichos ao norte de Santa Catarina, em junho de 1906.

 

Segundo o jornal, uma nuvem de gafanhotos, “vindos das regiões de este”, invadiu a zona norte de Joinville (SC), por volta das 10h da manhã do dia 21, “alvoroçando a nossa população, que pressurosa para esses lados affluiu no desejo de ver pela primeira vez a invasão dos insectos”.

 

Na tentativa de afastar os voadores, o povo promovia “grande barulho de latas” e “constantes apitos de machinas”, além de perseguir a nuvem com “fogueiras, foguetes e outras ameaças”.

 

O Commercio conta que, aos poucos, os insetos se dispersaram e, “sob o impulso do vento sul”, sobrevoaram “em densas nuvens ao longo do morro da Boa Vista”. Toda a confusão durou duas horas e quarenta e cinco minutos, segundo o jornal, que termina o texto exprimindo um desejo: “Fortes ventos os levem para bem longe!”

 

Na Bíblia

 

Os religiosos devem ter ficado mais ressabiados que a maioria, porque os gafanhotos constam na Bíblia como uma das dez pragas enviadas por Deus ao Egito, para convencer o faraó a autorizar o retorno do povo judeu à Terra Prometida. A descrição aparece no Livro do Êxodo, uma parte do Velho Testamento.

 

Diz o livro sagrado que, após orientação divina, Moisés foi ao imperador egípcio e repetiu as palavras que o Todo Poderoso havia lhe recomendado: “Deixe ir o meu povo, para que me preste culto. Se você não quiser deixá-lo ir, farei vir gafanhotos sobre o seu território amanhã”.

 

A ameaça tinha tons de maldição: “Eles cobrirão a face da terra até não se poder enxergar o solo. Devorarão o pouco que ainda lhes restou da tempestade de granizo e todas as árvores que estiverem brotando nos campos. Encherão os seus palácios e as casas de todos os seus conselheiros e de todos os egípcios: algo que os seus pais e os seus antepassados jamais viram, desde o dia em que se fixaram nesta terra até o dia de hoje.”

 

A Bíblica relata que o faraó se recusou e mandou expulsar o líder judeu do palácio, logo reconfortado por uma nova recomendação superior: “Estenda a mão sobre o Egito para que os gafanhotos venham sobre a terra e devorem toda a vegetação, tudo o que foi deixado pelo granizo".

 

Moisés assim fez, “e o Senhor fez soprar sobre a terra um vento oriental durante todo aquele dia e toda aquela noite” – curiosamente, os gafanhotos joinvilenses vinham da mesma direção que os bíblicos, de acordo com a descrição do Commercio. Em seguida, os insetos “invadiram o Egito e desceram em grande número sobre toda a sua extensão. Nunca antes houve tantos gafanhotos, nem jamais haverá”.

 

Exército formidável

 

Dez anos depois da primeira nuvem, a Gazeta do Commercio faria uma descrição poética – e quase resignada – de mais um ataque de gafanhotos, que surgiram em uma sexta-feira à tarde, “na sua longa perigrinação (sic) de todos os anos”.

 

As armas da população para tentar afastar os bichos eram as mesmas de 1906: apitos, bater latas e gritar para o alto. Mas eram tantos insetos que o “rapazio enchia os chapeos com os gafanhotos, que cançados (sic), vinham rebolando para o chão”.

 

Aos “milhares, às centenas de milhares, aos milhões talvez”, exagerava o jornal, passavam em “revoadas pardas, em nuvens cerradas, rindo-se talvez dos que cá debaixo estavam de nariz espetado para o ar, a vel-os”.

 

Na sequência, o narrador capricha na poesia, comparando a nuvem a “um exercito formidavel”, que ia “a caminho do paiz inimigo, o paiz dos milharaes noviços”. A narrativa termina com questionamentos quase existenciais sobre os gafanhotos: “De onde viriam? Para onde iriam?”

 

Calamidade pública

 

No ano seguinte, o assunto voltaria às páginas da Gazeta do Commercio, mas dessa vez com viés de catástrofe. O autor, que se identificava simplesmente como “Aldebaran”, tratava da chegada anual da “praga de gafanhotos”, que entre agosto e setembro atacava o Rio Grande do Sul, vinda da Argentina.

 

Os municípios gaúchos, com a ajuda do governo estadual, se mobilizaram para combater o ataque, “no sentido de salvar ao menos 75% da produção agrícola”. A esperança era que os insetos fossem lá detidos, mas novas nuvens penetraram a “fronteira catarino-paranaense”, descendo a “serrania” e alcançando a “parte ondulada e baixa de S. Catharina”. O jornal relata uma onda dos bichos indo em direção a São Paulo e o registro deles até no Amazonas, deixando “boquiabertos os scientistas que affirmavam ser a região florestal inmune e livre de suas visitas”.

 

Em seguida a Gazeta faz um apelo por um “credito extraordinario” para combater o que chamou de “calamidade publica”, sem o qual “perder-se-á tudo”. Já em 1917, porém, a expectativa em relação ao poder público não era muito diferente da atual... “Mas nada se pode esperar do Ministerio, porque este depende ao Congresso e elle não sabe medir as consequências deixadas pela praga: a fome em perspectiva, no futuro anno”.

 

Fonte: Gazeta do Commercio 03/11/1917

 

Inspector dos Trigos

 

A saída, conta o jornal, foi buscar uma solução local. Sabendo que Blumenau (SC) havia sido invadida pelos gafanhotos, o superintendente municipal de Joinville, Arthur Costa, foi atrás de ajuda, “afim de salvar” a cidade.

 

A salvação viria do poderoso “Inspector dos Trigos”, um funcionário estadual encarregado de supervisionar a produção agrícola. Esse, afirma a Gazeta, tinha vindo em pessoa a Joinville para combinar as “providencias de salvação”. Instruções impressas seriam distribuídas e o “inspector” tomaria para si o comando das “operações” na linha de frente.

 

Instruções de combate

 

E assim foi. Na mesma edição que trazia o apelo de “Aldebaran”, em novembro de 1917, a Gazeta publicava as “Instruções aos Colonos Agricultores contra a Praga de Gafanhotos”, estipuladas pelo “Snr. inspector de trigaes Lucio Brazileiro Cidade”.

 

As coordenadas para combater os insetos eram detalhadas, cobriam do momento de chegada dos bichos ao que fazer com gafanhotos pousados, além de como evitar sua reprodução. Para começar, em “cada roça, jardim ou pomar” seria preciso acender cinco fogueiras, tendo à mão “5 kilos de pixe negro ou alcatrão e 5 kilos de enxofre quebrado”. Quando a nuvem se aproximasse, a ordem era lançar o piche e o alcatrão às fogueiras e alimentá-las com “palha molhada”, para que a fumaça afugentasse os voadores.

 

Contra o “gafanhoto pousado” havia quatro alternativas: “irrigação com água venenosa”, “matal-os a varadas”, “esmagal-os com rolos de madeira ou pedra”, ou ainda usar “vassouras de trapo e palha, bem largas”, embebidas em querosene, para “varrer com ellas” os bichos.

 

Fonte: Gazeta do Commercio 03/11/1917 Gazeta-do-Comercio-03-11-1917-Gafanhotos-instrucoes-aos-colonos-03-11-jornal-retro

 

Veneno caseiro

 

Para acabar com os “ninhos de postura” de ovos dos gafanhotos, o “inspector dos trigos” recomendava uma elaborada receita de veneno caseira, que levava um quilo de “quassia amarga e fumo negro”, além de meio quilo de “pó da Persia”, tudo diluído em cinco litros de cachaça. A isso ainda se juntariam cem gramas de “cyanureto de potassio”, sal, meio quilo de “soda caustica do commercio” e água.

 

O preparado requeria certos cuidados. “Como é muito venenosa a mistura, deve-se cuidar de não molhar as mãos nem os pés”. Porcos e galinhas precisariam ser presos “até a primeira chuva. Depois não há mais perigo”.

 

Segundo o “inspector”, o líquido “não faz mal às plantas”, de modo que “as couves, repolhos e hortaliças” poderiam “ter serventia depois de trez chuvas consecutivas”...

Commercio-de-Joinville- 23-06-1906-Gafanhotos-em-Joinville-jornal-retro

Fonte: Commercio de Joinville

23/06/1906

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  •   Praga bíblica

    Representação medieval da oitava praga do Egito, em que Moisés comanda a nuvem de gafanhotos contra o faraó. A ilustração é do artista inglês William de Brailes, em um manuscrito de 1250.

Fonte: The Walters Art Museum

Gazeta-do-Comercio-30-09-1916-Gafanhotos-De-onde-viriam--desapareceram-jornal-retro

Fonte: Gazeta do Commercio

30/09/1916

Gafanhoto-argentino-jornal-retro
  •   Gafanhoto argentino

    Existem mais de 8.000 espécies de gafanhotos no planeta, mas os bichos que aterrorizavam o sul do Brasil no começo do século passado provavelmente eram do tipo Dichroplus maculipennis, mais conhecido como “gafanhoto argentino”, endêmico nas pradarias vizinhas naquela época.

Fonte: www.rionegro.ar

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  •   Fumaça

    Feita no Estado norte-americano do Kansas, essa ilustração (de 1875) mostra uma família de agricultores acendendo a fogueira para tentar afastar os gafanhotos, praga frequente por lá também. A técnica de usar palha para gerar bastante fumaça e vassouras em chamas parecem ser as mesmas recomendadas pelo “inspector de trigos” catarinense, mais de 40 anos depois.

Fonte: Kansas State Historical Society (www.kshs.org)

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